Homofobia internalizada.

Assista pelo vídeo em vez de ler

Gays são condenados pela maioria

“Não é só com os gays” é um dos comentários que mais recebo nos vídeos do canal Enrique Sem H, além de ser uma das coisas que mais ouço nos encontros do Clube dos Gays Solitários.

Meu primeiro problema com isso é a negação implícita do “Não é só”.

A escolha de palavras pode não parecer importante, mas o vocabulário de alguém diz muito sobre a homofobia internalizada de quem está falando.

Em vez de negar com um “não é só”, poderiam muito bem comentar um “acontece também com outros grupos”.

Porque é verdade: todos os humanos sofrem algum tipo de descriminação em algum nível, mas só os gays sabem como é ser gay.

Meu segundo problema é que quando isso sai da boca de um gay, é quase como um pedido de desculpas.

Acontece muito entre os membros do Clube esse “não é só com os gays”, vindo sempre como uma justificativa para validar a experiência singular do gay que está falando, mas sem despertar o comportamento defensivo que rola até entre os outros homossexuais no grupo ao enfiar a palavra “gay” nas falas.

É triste ver quando um cara tá falando que foi discriminado, mas precisa ficar dizendo o tempo todo “Eu sei que não acontece só com os gays” para não soar vitimista ou até mimado, mesmo que o ângulo pelo qual ele esteja narrando os acontecimentos seja importantíssimo de identificar como homossexual.

Essa identificação pode ser usada pelos outros para nos descriminar, mas também pode ser usada para a gente criar referências sobre as coisas comuns de um gay passar: as evitando ou solucionando antes de estragarem nossas vidas.

Referências visíveis e diversas também são fundamentais para que você seja capaz de visualizar diferentes possibilidades de futuro, fora das normas que não levam seu bem-estar em consideração.

Porque muita coisa só acontece com gay sim.

Você não é diferente dos outros humanos, mas é tratado como se fosse; mesmo quando não percebe; porque tem a capacidade de amar pessoas do mesmo gênero que o seu.

Uma vez que a maioria considera o gay como um erro da natureza ou uma afronta contra a família, o “bom senso” de viver em sociedade faz com que você, como pessoa gay, conviva com os danos causados pela homofobia internalizada sem saber.

Só esse detalhe torna toda a experiência de ser gay numa sociedade predominantemente homofóbica, incomparável à experiência de pessoas que não vivem esse tipo de condenação.

Eu não sei se você entende a força dessa palavra: “condenação”.

Antes mesmo de você manifestar qualquer tipo de curiosidade sexual, os adultos ao seu redor já sabiam que você era uma criança gay e começaram a te tratar diferente.

Alguns adultos continuaram amorosos ainda assim; outros foram tomados por ódio ou culpa; mas a maioria foi mesmo heterossexual, religiosa e desconfiada de tudo considerado “diferente”.

Além da abertura para violência, outro resultado da condenação é a rejeição.

Esses adultos que enxergaram traços femininos quando você deveria exibir comportamentos reservados ao papel do masculino, começaram a te doutrinar ali a se comportar feito homem.

Caso contrário, a porta da rua sempre foi a serventia da casa.

O nome disso é afeminofobia: uma forte polarização contra traços considerados femininos no que deveria ser um personagem masculino.

Falo sobre adultos de forma generalizada porque mesmo quando os pais são fantásticos e a família é estável, as figuras de autoridade fora do lar aderem e incentivam a norma homofóbica.

A rejeição não precisa acontecer dentro de casa para que você aprenda que será tratado pior por parecer gay.

Sendo franco, a grande maioria das culturas humanas escolheria apagar você se tivesse a oportunidade. Essa pressão nem sempre é direta: ela é velada com muita educação, religião e até “ciência”, e acontece todos os dias com mais de 10% da população global; seja lá onde estiverem no mundo.

Sua infância como gay é dedicada a aprender cedo a ler os ambientes para identificar quem são os aliados e os inimigos, e fica óbvio rápido que conter certos traços da sua personalidade “colorida” é essencial para manter seus relacionamentos aparentemente estáveis e a violência sob controle.

Porque fosse em casa ou no colégio, desmunhecar levaria à agressão verbal, moral, psicológica e física, sem motivo nenhum a não ser você parecer gay.

Há um antagonismo contra a imagem da mulher por trás do antagonismo contra os gays, e apesar de serem dois problemas diferentes, ambos são causados por uma ideia errônea de que homens são “machos alfas” por natureza.

Segundo um levantamento de 2025 pelo Grupo Gay da Bahia:

“O Brasil mantém-se como o país que mais mata pessoas LGBT+ no mundo, e a taxa de uma morte a cada 34 horas continua inaceitável.”

Então é verdade que os problemas de qualquer pessoa começam na infância e o título não contradiz o fato: ele adiciona uma camada única de sobrevivência que você, como gay, conhece desde a juventude.

Você sabe que quando era criança, simplesmente não tinha como mudar de família, de escola ou de amigos. Você tinha que agradá-los para que não te rejeitassem.

No caso do gay, agradar é simplesmente esconder os traços que lembram aos outros que você gosta da fruta.

Assim começaram os problemas e questionamentos que resultaram em você esbarrar comigo agora: porque você aprendeu a se defender da palavra “gay” antes mesmo de ver referências saudáveis do que ser gay poderia significar.

Homofobia internalizada na infância

Não estou dizendo que a infância é uma sentença, mas que boa parte das estratégias que salvaram você quando criança podem ser as coisas no caminho de você se sentir satisfeito com a vida adulta hoje.

É estatisticamente provável que as estratégias emocionais aprendidas na infância ainda estejam influenciando sua vida adulta porque seu organismo estabelece respostas padronizadas para certos tipos de situações quando mais novo.

Uma vez estabelecidas, tais reações são muito difíceis de serem desmontadas e costumam governar seu jeito de pensar.

Se hoje você é um adulto ansioso, derrotista e solitário, provavelmente aprendeu na juventude que o mundo era grande ou perigoso demais para enfrentar. Década após década, foi engolido por um isolamento que começou para te proteger, mas que hoje invalida suas tentativas de conexão com os outros.

Você sente que não tem coisas de valor para dizer. Sente que está irritando os outros ou que é um peso. Quase sempre escolhe por se calar ou, em momentos de extrema frustração, fala mais do que deveria e perde a razão.

Não ter controle sobre a narrativa da sua vida é o resultado de não ter controle sobre a sua narrativa interna, uma vez que a homofobia internalizada amarga a sua percepção sobre si e corta suas asas antes que alguém o faça.

A homofobia internalizada só existe para incapacitar o gay de lutar por espaços mais dignos na sociedade.

O tipo de solidão causada por esse monólogo interno não se resolve conhecendo mais gente ou comprando roupas mais bonitas. Você precisa se dar espaço e prioridade para ser autêntico como não pôde ser na juventude.

Você não precisa acreditar que o mundo é perigoso para continuar se comportando como se ele fosse: o corpo aprende a reagir às coisas antes de aprender que coisas são essas.

Anos depois, o cérebro faz de tudo para justificar comportamentos que fazem mal no presente, mas que começaram como mecanismos de defesa.

Por isso que você pode se contradizer ao pensar que não tem medo de nada nem ninguém, mas desistir de uma amizade, de um relacionamento ou de uma oportunidade, quando elas exigem que você exponha seus medos, desejos, vitórias ou falhas.

Ser tratado como inferior e não ter referências que mostrem o contrário faz com que você se sinta um impostor quando boas oportunidades aparecem.

Se no trabalho, a promoção não pode ser porque você é bom no que faz: só pode ser por sorte ou qualquer outra racionalização que anula o seu valor. Em um relacionamento, os elogios que você recebe são difíceis de acreditar, anulando as percepções positivas do outro sobre ti (causando uma outra série de problemas).

O crítico interior não se manifesta só como uma voz em terceira pessoa, mas como a crença de que somos mais falhos do que a maioria.

É uma profecia que cumprimos com atos de autossabotagem que na hora parecem a coisa certa a fazer porque nosso estado normalizado é o de caos e luta, raramente de paz e ordem.

Porque crescer internalizando a homofobia faz com que você seja capaz de tolerar situações desconfortáveis e perigosas, só para não ser rejeitado dos núcleos sociais.

Você deixa de ver aquela piada homofóbica do seu tio como um literal tapa sem mão e tenta racionalizar como expressão de carinho.

Normalizar agressividade te transforma num adulto que confunde atenção (mesmo negativa) com amor, algo comum entre gays que se apaixonam por homens heterossexuais ou que se tornam tão sarcásticos que ferem pessoas próximas por falta de vocabulário afetuoso para expressar carinho.

Você não precisa acreditar que aquela agressão foi uma violência.

Basta aprender que a violência é normal e você precisa calar a boca quando ela acontece.

Criança não pensa: “Meu tio tá reproduzindo uma estrutura social de punição contra os homossexuais”. Criança pensa: “Melhor eu não fazer isso de novo, senão vô me ferrar.”

Daí, pronto: a regra foi aprendida.

Sempre dou o exemplo do Clube dos Gays Solitários porque alguns membros já pagaram pela assinatura para participar dos encontros quinzenais e nunca apareceram.

A oportunidade está ali, mas a coragem para vivê-la (ou a crença de que não há absolutamente nada a temer), não está.

É aqui que a infância deixa de ser uma história sobre crianças e passa a ser uma história sobre você enquanto adulto.

Por isso você fala da sua “criança interior” em terceira pessoa: é só uma ferramenta linguística para identificar um problema abstrato e difícil de perceber, uma vez que você foi condicionado a normalizar os danos causados por ele.

Termos como “criança interior” ou “crítico interior” são usados para você conseguir se separar dos acontecimentos para vê-los de fora, como um amigo ou analista veria.

Um membro que evita os nossos encontros no Clube não evita o mal-estar social. O desconforto causado ao pensar nas outras pessoas é o mesmo. A coisa que ele evita é a possibilidade de descobrir que ele pode ser aceito como é.

Descobrir que a vida foi uma prisão que começou imposta pelos outros, mas que hoje só tem você como carcereiro, não é fácil.

Essa crença de que você precisa mutilar partes de quem é para caber nas normas funciona bem para uma criança que depende dos adultos para comer e ter onde dormir. Para uma pessoa crescida e independente, capaz de sustentar a si emocional e fisicamente, a mutilação é opcional e estratégica.

Só tem um problema: seu corpo não sabe disso.

O organismo que aprendeu que determinada versão de si era perigosa demais para deixar livre, continua reagindo como se dependesse da aprovação daquele ambiente tribal do passado.

Mesmo quando o adulto já pode escolher onde morar, com quem conviver, quem amar e que tipo de vida construir, ele ainda limita a si usando como referência a única doutrinação que recebeu no passado.

É a mesma voz que nos impede de matar alguém quando ficamos frustrados: a gente não fica repetindo “Não mate ninguém, não mate ninguém” na nossa cabeça para segurar o impulso.

O pensamento de matar alguém nem mesmo passa pela nossa cabeça.

Crescer gay é um fator impossível de ignorar quando falamos tanto de oportunidades de renda e crescimento de carreira, quanto de conexão social básica para não viver em solidão, porque o padrão social é mesmo o de rejeição. Acolhimento e igualdade ficam reservados para algumas exceções.

Talvez seja por isso que muitos homens gays confundam independência com isolamento. Se depender dos outros significava estar vulnerável à rejeição, então não precisar de ninguém parece uma solução inteligente.

Só que não é.

Você pode sobreviver sozinho, com certeza. Mas viver uma vida completa; com afetos e contatos que levam às possibilidades e experiências que só se vivem acompanhado; apenas é possível com a participação de outras pessoas.

Como a solidão não é um problema possível de resolver sozinho, a missão do seu crítico interior (ao menos em teoria) é te desencorajar de cometer erros que farão um grupo te rejeitar.

Fosse para caçar mamutes no passado ou encontrar boas vagas de emprego hoje, uma rede de suporte social é fundamental para o bem-estar do organismo humano.

Até eu, que passo 99% do meu tempo isolado e prefiro assim, preciso dos encontros quinzenais do Clube para não perder contato com a realidade.

Diferente de mim, que posso escolher por estar ou não acompanhado, talvez você precise tanto se preocupar com o que os outros pensam porque, se não fizer isso, não terá ninguém.

É num caso feito esse que o tempo tentando sobreviver às opiniões dos outros passa despercebido. Só anos depois você nota que passou a organizar toda a sua vida ao redor das opiniões de terceiros.

Agora você nem sabe quem é de verdade.

Por isso que o primeiro passo para viver uma vida mais completa é aceitar o fato de que você é gay numa sociedade homofóbica.

Você pode não tomar porrada e seus vizinhos podem ser manhosos, mas te garanto: a maioria das pessoas que você conhece, conheceu ou conhecerá, te olhará como se você fosse menos por ser gay.

É uma crença tão enraizada na cultura desse país religioso que se desenvolve por osmose como repulsa natural; pelo menos no primeiro contato, até verem que existe uma pessoa inteira por trás do arquétipo, o que leva tempo e exige dedicação.

Há quem realmente pense que ser gay não influencia em nada a vida de uma pessoa para além da sexualidade. Essas pessoas tentam diluir sua experiência a algo comum, quase sempre dizendo coisas na linha de “não acontece só com os gays” ou “você está se fazendo de vítima”.

Só que falar dos nossos problemas específicos como gays numa sociedade explicitamente ofendida com a nossa presença, é o contrário da vitimização.

Estou empoderando você com uma dose da realidade, meus anos de terapia, mais os relatos do Clube e muitos livros e estudos estudos, para que você desenvolva autonomia sobre a sua identidade, o seu presente e o seu futuro a partir desta leitura.

Porque outro erro é achar que você pode escolher ser vitimizado ou não; você não tem essa escolha.

Você não tem poder para escolher se será ou não injuriado por grupos, perseguido por instituições ou até banido como cidadão (ou assassinado) pelo próprio governo.

Vide a luta pelo reconhecimento do casamento homoafetivo no Brasil, que só tem 15 anos de legalidade, e a ditadura militar brasileira torturando homossexuais.

O que você pode fazer é entender como essa vitimização acontece quando vinda dos outros, e como notar os momentos em que a homofobia interiorizada tenta te manter pequeno.

Quando a gente começa essa mudança a nível individual, todo o coletivo é afetado; e outro erro é achar que você está separado da comunidade.

É com orgulho que te informo, mon amour, você não está.

Homofobia internalizada.
A homofobia internalizada cria um repertório limitado sobre o tipo de pessoa que um gay pode ser ou a vida que ele pode levar.

Você é condicionado a fingir

Sendo homossexual ou não, a gente aprende a se defender da palavra “gay”.

Por isso os títulos dos meus conteúdos te causam repulsa e curiosidade: “Manual do Solitário” causa menos constrangimento que “Manual do Gay Solitário”. Tudo que muda de uma frase para a outra é uma palavra.

Essa defesa não acontece conscientemente; é um reflexo condicionado.

Antes de existir o gay adulto que você conhece hoje, aquela criança tentando descobrir qual versão seria permitida no mundo não tinha Instagram, aplicativo de relacionamento, salário, nem apartamento ou autonomia, mas tinha uma pergunta:

“O que preciso fazer para ninguém perceber que tem algo errado comigo?”

Você engrossa a voz, controla os gestos, vê um homem que considera atraente e se repreende por algo tão natural.

Aí passa a evitar determinados assuntos nas conversas com as pessoas. Depois aprende quais opiniões pode expressar e quais devem permanecer trancadas na cabeça.

E quanto melhor você fica nisso, na performance, mais difícil é perceber que você está fazendo esse monitoramento o tempo todo. Até nos lugares nos quais você se sente teoricamente seguro.

Você sabe que não tem nada de errado em ser gay, mas:

  • Ainda sente vergonha quando alguém fala da sua atração por homens;
  • Pode defender outros gays e continuar julgando partes de si;
  • Pode até odiar a homofobia e continuar obedecendo as regras que ela determinou.

Historicamente, foram sobretudo as instituições e tradições cristãs que condicionaram até mesmo os próprios homossexuais contra si. Antes de você aprender a andar, teve alguém para te ensinar o que você deveria sentir sobre ser gay:

Repulsa.

Esse alguém nem precisa dizer a palavra “gay”. Basta ensinar que certos comportamentos, sentimentos ou maneiras de existir são vergonhosos e outros não.

Se algo que vem tão natural quanto respirar, mas você precisa sufocar para caber com os outros, você prioriza performance acima de autenticidade.

Essa é a característica mais marcante da epidemia da solidão gay, porque homens não conseguem se conectar mesmo com a tecnologia facilitando essas conexões.

Em outras palavras, eles não conseguem parar de performar em cenários que exigem transparência.

A performance é uma resposta ao preço caro de ser espontâneo e uma adaptação contra a invisibilização que apaga o direito de um futuro digno para os gays.

Só que aquilo que começou como uma forma de evitar a rejeição, passa a impedir precisamente a exposição necessária para construir intimidade.

Você não ocupa espaço

Invisibilização é o processo de ocultar um problema ou ignorá-lo por completo, contando com que ele desapareça por si só, ou seja eliminado de maneira direta (como através de violência física) ou indireta (como cortando verbas governamentais voltadas para o suporte de gays em situação vulnerável).

Você aprende muito cedo que existem partes de si que funcionam melhor quando permanecem invisíveis.

O problema é que esconder uma parte de si não é uma operação que termina quando você chega aos 18 anos: você pode continuar escondendo as coisas mesmo depois de ninguém mais estar te obrigando a se manter nas sombras.

É por causa da invisibilização que a epidemia da solidão gay é tão acentuada. Você não vê referências de si num mundo que o encoraja a se esconder, então passa a viver desconfiado de que os outros estão fazendo o mesmo com você: performando.

A vida nem sempre se torna infeliz: ela só se torna um marasmo sem oportunidades de crescimento porque sua aversão a riscos após décadas de pressão consome todo o seu senso de curiosidade quando diante de um desafio.

Uma vida construída para minimizar riscos pode parecer segura por fora, enquanto fica cada vez menor por dentro.

Dentre gays que cresceram normalizando o ato de se esconder, que tem como objetivo social a nossa invisibilização, podem surgir respostas que prejudicam consideravelmente o desenvolvimento de um adulto saudável:

  1. Compulsões baseadas em escassez que aumentam comportamentos de riscos quando surgem oportunidades de visibilidade e conexão;
  2. Projeções homofóbicas baseadas no desejo de apagar do outro a liberdade negada ao agressor;
  3. Ilusões de que você escolhe não ser vitimizado;
  4. E a própria vitimização crônica como resultado da baixa-autoestima que persiste da infância na vida adulta e normaliza o derrotismo.

A invisibilização que incentiva a performance na esperança de não ser mais rejeitado, também traz uma forte sensação de escassez sobre as possibilidades de conexão social e melhora na qualidade de vida em geral.

Perceba a sequência:

  1. Você aprende a se esconder;
  2. Se esconder reduz suas referências;
  3. Poucas referências fazem o mundo parecer menor;
  4. Um mundo menor produz escassez;
  5. A escassez alimenta a baixa autoestima;
  6. Baixa autoestima torna a exposição social perigosa;
  7. Mas a exposição é necessária para diminuir a escassez;
  8. Então mudar parece impossível.

O sistema se retroalimenta.

Para criar uma vida independente das crenças limitantes que enfiaram na sua cabeça sobre a palavra “gay”, você precisa começar a entender a verdade básica que:

O seu valor enquanto ser humano é independente da opinião de qualquer pessoa além da sua.

Isso não significa ignorar o que os outros pensam, mas deixar de tratar a opinião deles como uma medida objetiva do seu valor.

Spoiler: suas opções vão bem além de ser o amigo caricato que anima as festas da empresa no fim do ano, mas se sente como um impostor quando passa o Natal chorando no apartamento vazio por sentir que ninguém o conhece de verdade.

Grupo de gays "Clube dos Gays Solitários".

Você se torna exagerado

Depois de anos aprendendo que determinadas versões de você serão rejeitadas, não é difícil chegar a uma conclusão mais generalizada: a de que talvez não exista lugar para você no universo.

É aqui que a invisibilização vira escassez.

Escassez não é a falta objetiva de pessoas ou oportunidades, mas a percepção de que elas são raras, inacessíveis ou não foram feitas para alguém como você.

Traduzido no Brasil em 2016, o livro “Escassez” do professor de economia Sendhil Mullainathan de Harvard, explora como quando a finitude de algum recurso essencial é prolongada, o cérebro aprende a esperar pouco, desejar menos e dedicar menos recursos à ação de conseguir mais.

Em outras palavras, uma consequência direta da invisibilização é a crença de escassez:

  • De que há poucas possibilidades de sucesso ou felicidade para você;
  • De que há poucos gays no mundo ou homens que “prestam”;
  • De que não há autêntica amizade entre homossexuais;
  • Ou de que o destino é pré-determinado e imutável.

A escassez não diz “não existe”. Ela diz “não existe para mim“. A inimizade do mundo se torna pessoal e incontrariável.

Fica óbvio que a escassez pode levar à baixa autoestima. Só que autoestima é necessária para gerar o mínimo de autoconfiança que faz com que nos posicionemos na vida e saiamos desse buraco.

“Ninguém vai gostar de mim” vira uma profecia que você nunca precisa testar porque já decidiu não se apresentar e se isolar é mais fácil do que tentar.

É quando a gente olha para alguém que parece escolher viver sob o derrotismo numa rotina que o próprio sujeito considera miserável, mesmo quando diante de oportunidades que causam pequeno desconforto inicial por serem novidades, mas que levam a vidas realmente satisfatórias.

Para não dizer felizes.

Não tê-la gera o que chamo de futuro negado: a invisibilização das possibilidades de um futuro saudável, fora dos estereótipos heteronormativos que começam com o preconceito de fora, e que culminam na homofobia internalizada por conta de um crítico interior impiedoso.

Se você não sabe o seu lugar no mundo ou o valor da sua contribuição na vida das pessoas, dificilmente saberá como se posicionar em conflitos inevitáveis para o amadurecimento de qualquer ser humano: seja para pedir por um aumento ou deixar claro que você não tolera piadas.

O problema então não é só você se sentir mal consigo. É não conseguir enxergar possibilidades concretas nas quais você poderia ocupar um lugar de valor numa realidade compartilhada com os outros.

Você nunca é bom o bastante

A escassez não termina quando você percebe que existem oportunidades; ela continua quando você olha para essas oportunidades e conclui que elas foram feitas para pessoas melhores do que você.

A infância continua dentro do adulto na forma da autoestima: não como uma lembrança isolada do passado, mas como reflexos defensivos contra a rejeição que parecem naturais porque foram aprendidos cedo demais.

Não poder ser quem você é te condiciona a ser “o que dá”, te colocando numa posição desconfortável que parece não ter escapatória: performar.

Você aprende que ser aceito depende de cumprir determinados requisitos, agradando uma plateia que nunca estará satisfeita porque sempre haverá um novo requisito para provar que você merece pertencer aos normais.

Você não quer apenas um corpo bonito: quer um corpo que finalmente faça você se sentir melhor do que os que te olham torto ou não te olham de jeito nenhum.

Não quer apenas o sucesso: quer validação para ninguém usar sua homossexualidade como indício de que você vale menos enquanto pessoa.

E quando a gente fala do desejo de ser amado, você na realidade quer alguém próximo e confiável para silenciar a dúvida de que talvez exista mesmo alguma coisa errada com você.

Dessa necessidade de provar o seu valor podem nascer:

  • A obsessão com um corpo “perfeito”;
  • Ou o derrotismo crônico de não tê-lo;
  • Expectativas associadas à ilusão da aceitação;
  • A partir da conquista do prestígio de estranhos;
  • Do reconhecimento por parte da família;
  • Ou da escalada na carreira como “comprovante” de que você é um membro valioso da sociedade.

Afinal, é isso que a maioria das pessoas quer: ser reconhecida como uma entidade completa, digna de respeito e carinho.

Se essas coisas faltam na rotina, o cérebro tenta elaborar explicações para o porquê.

Ser ensinado que você precisa se esconder ou fingir, ou ser mais isso e menos aquilo para ser digno de atenção, condiciona seus reflexos a querer agradar a multidão mesmo quando às custas da sua integridade.

Você se trai, se sabota, mente, e passa a competir com todo mundo.

Principalmente com aquele outro gay que foi contratado na sua empresa; raramente aquele hétero que você chama de amigo, mas que faz piada de você pelas costas.

A competição com outros gays parece mais segura porque transforma a pergunta “Será que eu sou bom o bastante?” em uma disputa na qual você acredita poder vencer em comparação com as outras batalhas sociais.

Mais um indício de que gay é visto como alvo fácil até por outros gays: uma manifestação evidente da homofobia internalizada.

Você evita o que deseja

Aí acontece uma coisa cruel: a possibilidade de se conectar com outras pessoas, principalmente com outros homens gays, parece impossível.

Quando a coisa que você mais quer é conexão, mas ela parece fora do alcance depois de tantas décadas, você começa a evitá-la quando ela aparece.

É só lembrar do livro sobre escassez e dos membros que não conseguem participar dos encontros do Clube que citei no início.

Quando a autoestima acumulada é pouca, e as fontes que ajudariam a fortalecê-la não conseguem ultrapassar as barreiras da nossa ideia negativa sobre a gente mesmo, ela nos torna sensíveis a críticas.

Quando qualquer comentário é capaz de nos empurrar numa espiral de auto-ódio e tristeza, a gente começa a evitar qualquer tipo de exposição desnecessária.

O problema é que quando a exposição necessária aparece, seja para se conectar com uma pessoa através da nossa autenticidade ou para mostrar o quanto precisa daquela vaga de emprego, a gente recua e evita seguir adiante se o preço for a possibilidade de ser julgado.

É por isso que o evitamento não parece evitamento para quem está fazendo.

Você racionaliza, se convence de que não estava interessado naquela pessoa ou oportunidade de emprego, e volta a se distrair com seja lá qual for a sua droga de escolha: substâncias, carreira, redes sociais, e por aí vai.

Às vezes é verdade: tem caso que é melhor evitar do que tentar.

Mas às vezes esse padrão vira justificativa para sumir da vida dos outros, perpetuar a dor, e permitir a participação dos vícios como reguladores das suas emoções em situações que expõem essa identidade fragilizada.

Ao evitar a exposição para não sentir a dor da rejeição, você também evita as experiências que poderiam contradizer a crença de que você será rejeitado.

Esse evitamento acontece nas amizades, quando você é cercado de gente, mas sente que ninguém te conhece de verdade; e também em situações familiares, como quando, depois de adulto e especialmente com uma família que não te deu o que você precisava emocionalmente, você ajuda de volta com dinheiro e às vezes liga, mas dificilmente visita.

Você, que aprendeu a sobreviver evitando rejeição, pode passar décadas confundindo a ideia de paz com a ausência de exposição.

Só que uma vida sem exposição também é uma vida sem possibilidades de surpresa.

Tanto no caso desse isolamento dos outros e separação da comunidade gay, quanto no caso do gay que se joga num romance desfuncional atrás do outro, a causa do problema está no mesmo lugar: a falta de pertencimento causada por ser gay numa sociedade homofóbica.

A mesma ferida produz respostas aparentemente opostas:

  • Se afastar completamente e aceitar a derrota;
  • Ou buscar desesperadamente alguém que finalmente faça você sentir que pertence, mesmo quando essa pessoa não presta.
Homofobia internalizada.
Admitir que você é gay numa sociedade preconceituosa é assustador porque é um ato de resistência: você existe.

Solução

Para saciar a fome da sua solidão ou simplesmente retomar a capacidade de ser autêntico em ambientes sociais, é importante identificar que tipo de falta social você sente.

Só daí você testa soluções específicas ao seu perfil em vez de coisas genéricas.

Uma pessoa radicalmente introvertida não terá iniciativa de conhecer um monte de gente na balada; talvez ela só precise de um contato recorrente toda semana, por exemplo.

Também é importante reforçar que psicoterapia focada em identidade (ou que ao menos não invalide sua experiência como gay numa sociedade homofóbica) é o jeito mais rápido e seguro de identificar padrões negativos que podem ser literalmente invisíveis para você hoje.

É quando você sente os efeitos do problema, mas não sabe a causa, como uma vida com dinheiro e carreira estabelecida, mas uma sensação contante de que as coisas darão errado; ou ter vários amigos e familiares unidos, mas sentir uma pressão para agradá-los que não vem diretamente deles, por exemplo.

Há terapia gratuita em muitas partes do Brasil, além de profissionais a preços acessíveis consultando pela internet, então recomendo que você ao menos considere a possibilidade de uma consulta para ver se acompanhamento poderia te beneficiar.

Livros de autoconhecimento e psicologia positiva são os que considero mais próximos de “consulta grátis” e podem ser transformadores se forem seu único acesso à informação. Neurologia, psicologia, biologia e até filosofia nunca tiveram uma linguagem tão acessível quanto hoje.

Com um toque você pode começar a ler imediatamente o livro “A família de que se fala e a família de que se sofre” do Gaiarsa: pioneiro em explicar as conexões entre família, sociedade e sexualidade na formação de indivíduos infelizes e desconectados com a própria natureza.

Apesar de já ter usado no passado, não recomendo usar inteligência artificial para desabafar. As empresas que possuem essas tecnologias vendem seu perfil emocional para agências de publicidade tornarem anúncios mais efetivos nas suas redes sociais.

Mantenha seus dados privados e simplesmente responda para você mesmo as seguintes perguntas para identificar qual configuração de vida social você precisa para deixar se sentir fora de lugar na sociedade.

Teste rápido

Com que frequência você gostaria de ter contato social?

  1. Quase todos os dias.
  2. Algumas vezes por semana.
  3. Algumas vezes por mês.
  4. Raramente.

Que tipo de relação você mais sente falta hoje?

  1. Um relacionamento amoroso.
  2. Amizade entre iguais ou “família escolhida”.
  3. Uma causa para trabalhar em conjunto.
  4. Apenas ter pessoas para conversar às vezes.

Como você se sentiria tendo um grupo fixo de pessoas com quem pudesse conversar regularmente, mesmo que não houvesse contato individual entre os encontros?

  1. Não saciaria meu desejo por romance.
  2. Eu me interessaria.
  3. Depende do motivo do encontro.
  4. Seria o ideal para mim.

Qual destas situações descreve melhor sua relação com a solitude?

  1. Não gosto de ficar sozinho e procuro companhia sempre que posso.
  2. Gosto de ficar sozinho, mas sinto falta de companhia mais regular.
  3. Gosto da minha companhia, mas preciso dividir uma missão com alguém.
  4. Prefiro ficar só, mas gostaria de manter contato recorrente para não me isolar.

Resultado

Se você respondeu mais a opção 1

Sua falta é literalmente romântica e faz com que você busque um vínculo que só um relacionamento amoroso é capaz de oferecer. Essa é a falta mais difícil de resolver porque não pode ser substituída por outra coisa e deixar de vivê-la pode ser debilitante.

Uma vez que gays solitários dificilmente têm oportunidade de conhecer parceiros com potencial de compatibilidade fora dos aplicativos focados nas aparências e no sexo casual, a solução é primeiro ter paciência e tentar ser otimista.

O objetivo não é esperar passivamente que alguém apareça, mas continuar se colocando em situações nas quais uma pessoa compatível possa aparecer.

Sem otimismo, perde-se o desejo de mudar. Sem o desejo de mudar, a derrota é garantida.

O passo mais efetivo e que funciona tanto para os introvertidos quanto os extrovertidos, é criar perfis em aplicativos de namoro gay dizendo exatamente que você busca por um relacionamento amoroso, e deixá-los online até as estrelas se alinharem.

O Clube dos Gays Solitários também serve para te expor a possíveis romances, mas só como consequência do que a gente já decide fazer por lá: se encontrar para falar de temas ao redor da experiência de ser biba.

Fora das tecnologias, sobra a terapia: leve esse conteúdo para a pessoa que estiver ajudando você e explique que precisa superar suas crenças derrotistas para ter a coragem de tomar iniciativas no mundo real.

Para alguém buscando um relacionamento romântico, não tem outro jeito de conhecer pessoas a não ser conhecendo pessoas.

Mas para evitar da gente sabotar o relacionamento quando ele finalmente acontecer por conta de complexos de inferioridade ou paranoia (que são só dois exemplos de uma lista enorme de problemáticas) o autoconhecimento precisa estar em dia.

Se você respondeu mais a opção 2

Sua falta é mais de companhia e convivência do que romance: um desafio quando as plataformas de contato entre gays são voltadas para o sexo e namoro.

É mais provável que você encontre satisfação social em grupos online ou comunidades presenciais ao redor de temas importantes para você.

O Clube dos Gays Solitários também aparece como opção porque reúne homens gays procurando o mesmo que você: conexão.

Os encontros são quinzenais para manter a constância social, as vagas são limitadas para nutrir a intimidade entre os membros, e cada encontro gira ao redor de um tema que eu mesmo guio para que todos tenham espaço de fala.

Se você respondeu mais a opção 3

Sua falta é mais de uma razão social para se reunir com os outros, do que saciar uma carência emocional por si só.

Seu desejo de dividir uma ação com alguém também pode ser saciado pelo Clube (porque os membros se tornaram uma irmandade ao redor das peculiaridades de ser gay) ou mais ainda:

Através de voluntariado.

Conhecer pessoas em causas importantes para o clima, para a vida de outros animais, e até em escala menor (como limpando espaços públicos ou distribuindo comida para moradores de rua) sacia aquela fome por ser útil em bando

Quando falo de voluntariar, falo de participar pessoalmente de eventos de voluntariado.

Doar dinheiro pela internet não conta porque a missão não é só ajudar a causa, mas adicionar pessoas com ideologias e gostos similares aos seus, à sua rotina carente desse tipo de identidade comunitária.

Se você respondeu mais a opção 4

Sua falta é mais de recorrência social do que de relacionamentos em si. Isso é muito comum em pessoas neurodivergentes: elas precisam mais de estrutura social para interação periódica, do que altas doses de afeto.

Eu me encaixo nesse arquétipo e, se você também, autonomia com impacto é o resultado que você procura quando na companhia dos outros: o poder de adicionar algo interessante à conversa, mas com o direito de partir a qualquer momento sem ser penalizado.

Vale procurar por clubes de livros na internet ou recrutar jogadores online em fóruns para manter o microfone aberto durante as partidas.

Se gosta de criar, publicar textos e vídeos sobre seus interesses pode ser valiosíssimo para atrair como público o tipo de amigo que você gostaria de fazer no mundo real.

O Clube dos Gays Solitários também pode ser ideal porque temos vários membros neurodivergentes (inclusive em espectros do autismo) que usam o espaço seguro dos encontros para praticar a interação social a partir da autenticidade.

A homofobia internalizada é o maior inimigo do homem gay adulto

O primeiro passo para ser uma pessoa mais satisfeita consigo (e potencialmente acompanhada de gente boa) é aceitar que o fato de você ser gay influencia toda a sua vida enquanto membro da sociedade humana.

Admitir essa verdade garante que todos os problemas que permaneceriam invisíveis sob a ignorância, sejam trazidos à luz e impedidos de continuar governando a sua vida.

Os próximos capítulos do Manual do Gay Solitário continuarão iluminando, ordenando e nomeando os sintomas e causas da epidemia de solidão masculina.

É a referência que faltava para você ver que é possível envelhecer como um homem gay feliz, maduro, acompanhado, saudável e valioso para a sociedade, sem se mutilar para caber como o mais rico, o mais bonito ou o mais respeitado.

Você só precisa aprender como se sentir seguro sendo você.