Como fazer amigos gays.

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Por que gay é especialista em fingir ser o que não é?

O primeiro capítulo do Manual do Gay Solitário falou sobre como a experiência de ser gay numa sociedade homofóbica começa muito antes de você ter idade para entender o que significa ser homossexual.

Você aprende a ler os ambientes muito cedo para controlar seus gestos, esconder seus desejos e performar uma versão de si que parece mais aceitável.

Aposto que ficou óbvio para você desde cedo que não há lugar para o gay na sociedade homofóbica além de como um acessório:

  • Um alívio cômico entre seus conhecidos héteros, porque humor é um jeito de driblar a agressividade e nutrir o pertencimento, mesmo às custas da sua autenticidade;
  • O mártir oficial da sua família, crucificado por ter nascido pecador, saco de pancadas de qualquer ego ferido e culpado até pelos erros que não cometeu só porque nasceu com a capacidade de amar outros homens;
  • Mão de obra mais barata a ser explorada, justamente porque homens gays tendem a se encontrar em situações de maior vulnerabilidade física e mental;
  • E sempre um corpo a ser usado para o prazer do outro, porque o gay raramente é visto como um ser humano completo com necessidades próprias.

Então, além da homofobia internalizada basicamente nos doutrinar a nos tornar os nossos próprios carrascos, fazendo com que a gente continue cedendo nossa autonomia e mutilando nossa essência mesmo quando somos adultos independentes, ela também nos rouba do elemento mais importante para o desenvolvimento e estabilidade de uma pessoa madura: pertencimento.

Você se sentir solitário como homem gay em plena década de 2020, quando temos tantas tecnologias e iniciativas como o meu próprio Clube dos Gays Solitários para conectar pessoas umas às outras, é indicativo de um problema que está longe de ser exclusivamente individual: homens gays podem experimentar a solidão em associação com discriminação, falta de suporte social, homofobia internalizada, ocultação da orientação sexual e medo de rejeição.

E qual é o jeito mais efetivo de apagar um inimigo?

Dividi-lo, isolá-lo e fazê-lo acreditar que o único lugar dele é no inferno, porque dessa forma:

  1. Ele internaliza tudo que tem de “errado” com ele;
  2. Se tornando o próprio inimigo e carcereiro numa prisão mental que é perpetuada mesmo quando ele tem dinheiro e liberdade material;
  3. O que acaba perpetuando a própria solidão, uma vez que não há coragem para expor a autenticidade, desejos e necessidades após anos de “cosplay de homem”;
  4. E acaba entrando para a estatística como mais um homem gay que morreu mais cedo: dados oficiais recentes da Inglaterra e do País de Gales encontraram uma expectativa de vida menor entre homens que se identificam como LGB+ do que entre homens heterossexuais.

O que ele não sabe é que esse pertencimento pode ser construído do zero com um pouco de intenção e vocabulário.

A missão deste capítulo 2 do Manual do Gay Solitário é mostrar como e por que fazer isso o mais rápido possível — inclusive como fazer amigos gays sem transformar toda conexão em romance, sexo ou disputa por validação.

Por que gay confunde aceitação com pertencimento?

Quando você aprende a performar, você aprende que só precisa ser aceito, e o fato de pertencer não passa pela sua cabeça.

Como eu disse no capítulo 1, as palavras que escolhemos para descrever as coisas são importantes porque elas são tudo que temos para tornar experiências e sentimentos imateriais (e consequentemente invisíveis) em narrativas tangíveis sobre as quais podemos agir.

Porque, se você passou a infância tentando descobrir o que precisava esconder para que ninguém percebesse que havia alguma coisa diferente em você, provavelmente passou muito tempo preocupado com a pergunta errada.

“Como faço para gostarem de mim?”

Aceitação e pertencimento são palavras parecidas, mas designam coisas diferentes que precisam ser separadas para que você entenda a real diferença entre ser querido e ser tolerado.

Ser aceito significa que os outros permitem a sua presença, mas com condições que podem (e serão) revogadas se você não se conformar com as expectativas.

Já pertencer significa que existe um lugar fixo e insubstituível para você naquela relação, grupo ou comunidade: você não precisa ficar reconquistando esse lugar toda vez que aparece.

Não prestar mais atenção nas palavras que você usa para definir as experiências que vive é o que leva você a aceitar quando sua família fala homofobias absurdas que você jamais aceitaria ouvir de uma pessoa na rua: eles te “aceitam”, por mais que você seja mais um alívio cômico ou válvula de escape para outros membros.

Mas a culpa não é sua: você só aceita esse tipo de coisa e confunde aceitação com pertencimento porque é preciso que alguém ensine essas diferenças pra gente.

Se ninguém faz isso dentro de casa, raramente fará na rua; e é exatamente por isso que eu tô aqui, publicando este Manual para você e milhares de outros gays em busca de conexão genuína.

Por que gay confunde autenticidade com insegurança?

A pergunta que você deveria ter sido ensinado a fazer é:

“Com quem eu consigo ser eu mesmo?”

Essa pergunta é chave para que você solucione a solidão na sua rotina, porque, enquanto isso não acontecer, você continuará gastando tempo, dinheiro e energia tentando extrair conexões autênticas de ambientes que não foram feitos para isso.

Vide o porquê de você acreditar que precisa ser o mais bonito do aplicativo; caso contrário, só sua personalidade não é suficiente.

Ou quando você acredita piamente que precisa se tornar o cara mais rico e poderoso da sua carreira para sentir que sua existência enquanto pessoa ou cidadão receba o valor que merece.

Em outras palavras:

Você aprendeu que sua posição no mundo depende de onde os outros colocam você.

Você pode se assumir, morar sozinho, ganhar dinheiro, ter um apartamento bonito, frequentar lugares gays e continuar sem saber onde realmente pertence; sempre correndo atrás da próxima aprovação ou validação.

Sua carência vem daí: você pode ter dezenas de pessoas no WhatsApp, mas nenhuma para ligar quando alguma coisa importante acontece.

Pode ter milhares de seguidores, inúmeros colegas de trabalho, uma família enorme e até um namorado fantástico, mas continuar sentindo que ninguém conhece você de verdade.

Isso também é solidão.

E talvez seja uma das formas mais difíceis de perceber porque, por fora, parece que está tudo funcionando.

Afinal, você aprendeu bem a fingir que não está estressado, nem magoado, e só a ideia de que você pode ser um peso para os outros faz com que você se sinta constrangido.

Você abandonou a autenticidade que é fundamental para fazer com que você se torne um elemento único na vida das pessoas que poderiam tirar você desse isolamento, e agora você nem sabe quem é.

O que você sabe é que você deseja mais do que tudo:

  • Viver a experiência de ter um amigo verdadeiro, algo extremamente difícil para homens gays;
  • Talvez viver um romance no qual você se sinta visto e cuidado pela primeira vez na vida, algo ainda mais complicado de viver;
  • E possivelmente uma família, seja no sentido tradicional ou formando a sua própria através da sua família escolhida: outro desafio em um mundo preocupado demais em parecer em vez de ser.

No fim das contas, você não está fisicamente sozinho: tem gente para todo lado.

Você só não está inserido na vida de ninguém porque se preocupa tanto com o que vão achar que vestiu uma máscara para se proteger, e agora sofre com a constatação de que ninguém te conhece de verdade.

Eu e você mudaremos isso agora.

Por que gay confunde coragem com culpa?

Para alguém conhecer você, alguma parte de você precisa estar disponível para ser conhecida.

Não estou falando para sair contando seus traumas para qualquer pessoa; estou falando de coisas simples:

  • Admitir que está com medo;
  • Gostar de algo pouco comum;
  • Dizer que sentiu falta de alguém;
  • Ter uma opinião que não é popular;
  • Responder com um “Não” ao “Tudo bem?”;
  • Falar que gostou de passar tempo com aquela pessoa;
  • E principalmente falar quando alguém te ferir.

Essas pequenas exposições permitem que outras pessoas conheçam a versão de você por trás da performance social.

Em resumo:

Para pertencer, você precisa ser conhecido. Para ser conhecido, você precisa deixar alguma coisa pessoal transparecer.

Só que você passou anos aprendendo exatamente o contrário: que chamar a atenção, parecer gay ou precisar dos outros era perigoso.

Então você chega na vida adulta querendo intimidade acima de tudo, mas continua protegendo as partes vulneráveis de si que permitiriam essa intimidade de acontecer.

Por isso você pode passar a noite inteira conversando com alguém e voltar para casa com a sensação de que aquela pessoa não sabe nada sobre você.

Talvez ela realmente não saiba; e nem sempre por culpa dela.

Talvez você tenha administrado tanto o que podia ser visto ou não, justamente pelo medo de ser mal interpretado ou sair como vilão, que a única impressão que você passou foi a de alguém preocupado demais em agradar.

Você precisa aceitar que as opiniões dos outros são delas: há pouco o que você pode fazer para mudá-las.

O que a gente pode fazer eu sugerirei daqui a pouco, mas antes é importante separar também a atenção que a gente busca nos romances do nosso desejo universal por intimidade.

Por que gay confunde intensidade com intimidade?

Quando surge uma oportunidade de conexão após anos de escassez, você vai com muita sede ao pote, vive o relacionamento até ele explodir e retorna à solidão.

Isso acontecia muito comigo: meses sem tocar outra pessoa até conhecer um cara fantástico, me apaixonar muito rápido, acreditar que ele era a peça que faltava na minha rotina e depois ou eu ou ele fazer algo totalmente absurdo e contraditório com o futuro que planejamos juntos.

O que eu demorei para aprender é que, assim como aceitação e pertencimento são coisas diferentes, intensidade e intimidade não são a mesma coisa.

Uma relação pode começar de maneira muito intensa e ainda assim não conseguir sobreviver à rotina, porque a rotina é onde você descobre se existe alguma coisa além da novidade.

É quando a pessoa fica chata, quando discorda da sua opinião, quando decide não transar, quando está de mau humor e a última coisa na cabeça dela é impressionar você.

Essas horas só se apresentam com o passar do tempo porque, diferente da intensidade, a intimidade precisa de espontaneidade e autenticidade para acontecer.

Outro exemplo; mas um que você talvez não vá gostar.

Eu estava vivendo uma aventura romântica atrás da outra; todas intensas. Como esses relacionamentos dificilmente passavam de 12 horas, eu subconscientemente buscava quantidade em vez de qualidade.

Então, durante o encontro, eu estava sempre bonito, cheiroso e arrumado. Minha voz era mais grave; meus gestos, controlados. Na cama, eu nem queria a luz acesa porque o sexo significava o fim da noite e voltar para casa sozinho, algo que eu temia a todo custo morando sozinho em uma cidade na qual eu não conhecia ninguém.

Até que numa noite eu saí com um cara e toda a minha pompa literalmente escapou do meu corpo pela bunda quando eu soltei um pum audível no restaurante.

Ele começou a rir e eu não sabia onde enfiar a cara.

Parece engraçado agora, mas no momento essa situação pareceu um pequeno trauma; como se minha vida dependesse de ele jamais saber que eu peidava, fazia cocô ou visse uma meleca seca escapando do meu nariz.

Ele não significava nada para mim, mas como eu me enxergava através dos olhos dele, eu queria fazer uma performance exemplar do meu cosplay de machinho tradicional.

A coisa ficou tão séria que eu virei as costas e literalmente corri para fora do restaurante decidido a enviar o dinheiro para ele depois; eu só queria sumir.

Ele teve que me segurar pelo braço, me convencer a voltar para a mesa e levar a situação menos a sério. Foi muito, muito difícil, mas até o final da noite eu estava rindo disso.

O mais surpreendente é que abrir mão da performance fez com que nossas conversas fossem ainda mais interessantes e que eu percebesse o quanto eu não estava me preocupando em tentar conhecer os outros caras porque estava muito distraído com o meu crítico interior controlando os meus gestos e entorpecido pela intensidade dos relacionamentos superficiais nos quais eu me jogava para me preocupar em estar presente e corajoso para conhecer o outro e permitir que ele me conhecesse.

Assim como a maioria dos homens gays, eu estava confundindo intensidade com intimidade porque fui treinado pelas redes sociais a ser “mais” e querer “o melhor”, em vez de simplesmente ser eu e desejar ser visto por quem sou.

Noto que o homem gay solitário pode acabar buscando a intensidade para compensar pela mesma falta de continuidade social que eu sentia.

Não significa que a intensidade seja ruim, só que você talvez esteja esperando que ela faça um trabalho que não consegue fazer sozinha.

Em resumo

Fazer amigos entre homens gays fica especialmente complicado se você aprendeu a enxergar conexão através da lente da atração: da performance de fingir ser outra coisa para suprir as expectativas de alguém, mesmo que esse alguém já não esteja fisicamente presente, apenas como uma memória traumática de crescer gay num país homofóbico.

Porque você também tende a tratar qualquer homem gay interessante como um potencial romance ou parceiro sexual, eliminando a possibilidade de desenvolver amizades autênticas, independentes das regras modernas e superficiais de atração.

E é aí que amizade gay fica complicada: você pode querer conexão com outros homens, mas ter aprendido a interpretar quase toda conexão como uma oportunidade sexual ou romântica.

Você perde a oportunidade de fazer amizades, seja pela ausência de mais espaços de convivência como o meu Clube dos Gays Solitários, ou porque a sua homofobia está tão internalizada que você rejeita exatamente aquilo que te lembra do que você é: gay.

Agora vamos às soluções.

Como fazer amigos gays sem transformar todo homem gay em um possível interesse romântico?

Ele é bonito, vocês conversam bem, ele demonstra interesse e pronto: você começa a imaginar o que aquilo poderia virar.

Se você aprendeu a enxergar conexão através da lente da performance, qualquer homem interessante parece primeiro uma oportunidade romântica.

Na maioria dos casos, quando esse interesse romântico não é reciprocado, homens gays tendem a eliminar totalmente uma chance de amizade.

Se em algum momento você se notar fazendo isso, se pergunte o seguinte:

“Eu gostaria de ter esse cara na minha vida mesmo se a gente nunca transasse?”

Essa pergunta separa a atração do potencial de amizade, que por sua vez pode levar ao romance e/ou ao afeto fraternal/platônico que só nasce com:

  • Tempo;
  • Presença constante;
  • Rotina social.

Você pode achar alguém bonito sem querer namorar com ele. Pode sentir tesão sem existir compatibilidade. Pode gostar da atenção de alguém sem gostar realmente da pessoa.

E também pode encontrar um homem com quem não existe nenhuma tensão sexual e descobrir uma amizade que durará anos!

O objetivo não é eliminar a atração.

O objetivo é parar de deixar que a atração decida sozinha quais relações merecem o investimento.

Como reconhecer homens com quem você pode construir amizade?

Então você não precisa encontrar o gay mais interessante da cidade para fazer amizade.

Você só precisa aprender a reconhecer quando houver curiosidade mútua em continuar se conhecendo ao esbarrar com uma pessoa aberta para essa conexão.

Acredite: tá todo mundo solitário; não é tão difícil assim encontrar alguém para jogar conversa fora.

Recomendo que você comece a praticar jogar conversa fora para aprender a prestar atenção nas coisas simples que dão pistas sobre o interesse dos outros em você:

  • Ele cumpre o que combina?
  • Respeita quando você diz não?
  • Ele pergunta coisas sobre você?
  • Você consegue relaxar perto dele?
  • Consegue discordar sem virar briga?

E existe uma pergunta ainda mais importante:

“Eu gosto de quem eu sou quando estou perto dessa pessoa?”

Como começar uma amizade sem esperar intimidade instantânea?

Só que conhecer alguém não é a mesma coisa que fazer um amigo: é apenas criar uma possibilidade.

Você não precisa sair de uma conversa sabendo que encontrou o seu melhor amigo. Você precisa descobrir se gostaria de conversar com aquela pessoa novamente ou não: só isso.

Se a resposta for sim, em vez de dizer coisas como “Vamos marcar qualquer dia?”, faça um convite concreto:

“Você disse que nunca foi naquela pizzaria, então vamos nesse sábado? Vi que eles abrem às 19h.”

Parece pouco porque é pouco: você não está tentando “criar” intimidade. Você está reforçando a mesma oportunidade.

Depois você reforça uma terceira vez; depois uma quarta; e aos poucos vocês ganham a oportunidade de fazerem parte da rotina um do outro sem depender da intensidade para anestesiar o desconforto da exposição.

É assim que amizades nascem; era mais fácil quando éramos obrigados a nos encontrar todos os dias no colégio, sempre no mesmo horário e com as mesmas pessoas.

Enquanto adultos, precisamos criar essa recorrência social por nós mesmos e ainda sermos pró-ativos, porque os outros têm tanto medo da autenticidade quanto a gente.

Como transformar encontros em continuidade social?

Mas talvez você conheça muita gente e continue sem amigos porque está confundindo conhecer pessoas com construir relações.

Você vai a uma festa, conhece três caras, troca Instagram, conversa durante alguns dias e nunca mais encontra nenhum deles.

Depois de algumas semanas, está sozinho novamente e conclui que é impossível fazer amigos.

Vamos começar pelo óbvio: você não precisa de mais encontros, mas sim de continuidade.

Um café na terça-feira; uma caminhada no domingo; uma mensagem aleatória porque alguma coisa fez você lembrar daquela pessoa.

Quando eu penso em relacionamentos, eu literalmente me visualizo brincando com uma peteca: eu não posso deixar cair.

Para alguém ansioso, essa visualização deve ser cansativa e desesperadora porque dá a sensação de que a peteca só depende de você para ficar no ar.

Só que, na minha versão saudável dessa visualização, eu nunca estou jogando sozinho: sempre tem alguém pra segurar a peteca comigo ou eu arranjo outro grupo para jogar.

Jogadora, ela… olha só.

Como demonstrar interesse sem sexualizar?

E, apesar dos vários micos e bolas-fora, talvez você tenha aprendido que a única maneira de demonstrar interesse por outro homem é através do flerte.

Mas existem outras formas de dizer: “Ei, rapaz, eu gostei de você!”

  • Pode elogiar uma qualidade que não tenha nada a ver com aparência;
  • Pode lembrar de alguma coisa que ele contou;
  • Pode dizer que gostou da companhia;
  • Pode mandar mensagem porque sentiu saudade;
  • Pode convidá-lo para fazer alguma coisa sem esconder uma segunda intenção;
  • Pode abraçar um amigo;
  • Pode dizer “eu gosto de você”;
  • E nada disso precisa virar sexo.

Talvez essa seja uma das coisas mais estranhas de aprender depois de uma vida inteira associando intimidade masculina à sexualidade:

Você pode gostar muito de outro homem sem precisar transformar esse sentimento em desejo.

Como lidar com rejeição e falta de reciprocidade?

Nem toda pessoa de quem você gostar vai querer construir uma amizade contigo.

Às vezes você vai chamar alguém para sair e ele vai dizer não. Às vezes a amizade começa, mas só você continua tentando. E às vezes a pessoa simplesmente desaparece.

Essa rejeição dói como qualquer outra, mas um “não” não significa “Ninguém me quer”. Significa apenas que aquela relação não funcionou.

Você não precisa convencer alguém a gostar de você porque amor não é uma recompensa por ser bem-comportado. Fazer isso seria voltar para a mesma performance da qual estamos tentando sair.

Amor é uma consequência orgânica de gostar tanto da individualidade do outro que você passa a estender o seu desejo por felicidade e crescimento para ele também.

Seu objetivo não é ser aprovado por todo homem gay que encontrar.

Você só precisa encontrar poucas pessoas com as quais exista reciprocidade suficiente para construir alguma coisa.

Se uma amizade não acontecer, você não volta para o zero.

Você volta sabendo um pouco mais sobre quem procura e sobre quem você é quando tenta se aproximar de alguém.

Como construir uma rede em vez de depender de uma única pessoa?

Depois de passar tanto tempo sozinho, é tentador transformar a primeira pessoa que aparece em responsável por preencher todos os espaços vazios da sua vida.

Você conversa todos os dias, conta tudo e quer fazer tudo junto. Mas, sem perceber, aquela pessoa virou seu amigo, companhia, confidente, parceiro de rolê e principal fonte de validação.

Ter um amigo traz sim uma forte sensação de pertencimento. Mas, para envelhecer de forma saudável como um homem gay na sociedade moderna, você precisa de um núcleo afetivo.

Esse núcleo tem um papel fisiológico similar ao de uma família, protegendo não só o seu organismo dos danos causados pela solidão, mas também expandindo as possibilidades de futuro para você e seus outros amigos.

Assim como uma árvore na floresta parece distante das outras, mas na verdade possui uma rede subterrânea de fungos as conectando e nutrindo, você precisa do seu sistema invisível de amigos para diversos tipos de atividade e conversas.

Assim você não fica dependente de apenas uma fonte, muito menos limitado a existir dentro da sua bolha segura sem jamais se desafiar de novo.

Caso contrário, você volta a correr o risco de morrer na estatística de homens gays que partem dessa vida sem nada além de alguns pertences e um coração partido.

Você precisa de um amigo para falar de trabalho, outro para sair, outro para conversar sobre relacionamentos e talvez outro que conheça uma parte muito íntima da sua história.

Sua rede não precisa ser enorme: ela só precisa ser real.

Como encontrar homens gays que também querem fazer amigos?

Talvez você tenha entendido tudo isso e esteja pensando:

“Tá, mas onde eu vou encontrar esses caras?”

Porque você pode tomar coragem, aprender a conversar, fazer convites e se esforçar para construir continuidade; mas, se passar a maior parte do tempo em ambientes nos quais ninguém está procurando amizade, você continuará dependendo da sorte.

Foi para resolver esse problema que eu criei o Clube dos Gays Solitários: um espaço seguro para homens gays que querem conhecer outros homens gays sem precisar transformar cada encontro em uma disputa por atenção, validação, sexo ou romance.

A gente se encontra semanalmente por videochamada para conversar sobre experiências que temos em comum, jogar conversa fora e agora estamos adicionando encontros extras para trocar músicas, assistir coisas juntos e simplesmente passar tempo na companhia de outros homens gays.

Você não precisa chegar sabendo fazer amigos.

Essa é justamente uma das coisas que você vai praticar com a gente.

A ideia é simples: criar um lugar onde você já saiba que outros homens também estão procurando um grupo de homens gays.

As vagas são limitadas para que todo mundo tenha espaço de fala, e os encontros são virtuais para que homens gays de diferentes cidades possam participar.

Você assina o Clube e pode participar dos encontros enquanto a assinatura estiver ativa.

E quando fizer uma amizade lá dentro, ela continua sendo sua, mesmo se você cancelar (o que pode ser feito a qualquer momento).

Porque o Clube não existe para ser o lugar onde você fica para sempre.

O Clube existe para aumentar as chances de você encontrar pessoas com quem queira continuar na vida real.

Se ainda houver vaga, você pode participar do próximo encontro e descobrir por si mesmo: é só se inscrever na lista de espera.

Como se tornar alguém que também sabe ser amigo?

E apesar de eu apontar o dedo na cara da homofobia no capítulo 1 do Manual do Gay Solitário, esse capítulo 2 deixou bem claro que parte desse final feliz depende de você.

Você precisa aprender a perguntar como alguém está e realmente ouvir a resposta.

Praticar lembrar do que a pessoa contou, nem que você tenha que fazer anotações no seu diário.

Precisa parar de esperar e tomar coragem de mandar mensagem primeiro.

Precisa fazer convites e aguentar o tranco da rejeição.

Você precisa aparecer; dizer que sentiu saudade; que aquela palavra machucou; e admitir que você se sente só e gostaria que as coisas fossem diferentes.

Você passou anos aprendendo a evitar qualquer comportamento que pudesse fazer alguém rejeitar você.

Agora precisa aprender uma coisa diferente:

Permanecer sendo você mesmo mesmo quando existe a possibilidade de alguém não gostar disso.

Isso é coragem e ela é essencial para formar amizades. Não há nada pelo que se culpar.

Como construir pertencimento pela continuidade?

Talvez você tenha passado tempo demais esperando sentir que pertence.

Esperando encontrar a turma correta ou o namorado perfeito e o amigo ideal.

Mas aí apareceu o Clube e você não teve coragem de participar.

Alguém entrou na sua vida disposto a ficar e você se sentiu exposto demais para continuar e se isolou de novo; talvez na esperança de que haverá um encontro mágico reservado no destino para que você encontre a pessoa certa.

Mas pertencimento não aparece de repente quando você encontra a pessoa certa.

Você constrói pertencimento toda vez que aparece:

  • Toda vez que convida alguém;
  • Que deixa alguém conhecer uma parte verdadeira de você;
  • Toda vez que demonstra que se importa;
  • Toda vez que você volta para que o outro saiba que pode contar com você;
  • E toda vez que você se permite contar com o outro também.

Posso resumir que a amizade não nasce de uma conexão extraordinária. Ela nasce quando duas pessoas continuam escolhendo uma à outra depois que a novidade acaba.

Você não precisa ser o homem mais bonito da sala, nem o mais engraçado, nem o mais rico.

Você só precisa parar de tentar ser todas essas coisas por tempo suficiente para que alguém consiga descobrir quem você é.

E depois fazer uma coisa que talvez pareça simples, mas que pode ser revolucionária para um homem gay que passou a vida inteira se escondendo:

Marcar presença de novo amanhã. E de novo. E de novo. E de novo.

Preferencialmente sem peidar no restobar.